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Canção do dia de sempre

Tão bom viver dia a dia... A vida assim, jamais cansa... Viver tão só de momentos Como estas nuvens no céu... E só ganhar, toda a vida, Inexperiência... esperança... E a rosa louca dos ventos Presa à copa do chapéu. Nunca dês um nome a um rio: Sempre é outro rio a passar. Nada jamais continua, Tudo vai recomeçar! E sem nenhuma lembrança Das outras vezes perdidas, Atiro a rosa do sonho Nas tuas mãos distraídas... Mário Quintana

Li um dia, não sei onde

Li um dia, não sei onde, Que em todos os namorados Uns amam muito, e os outros Contentam-se em ser amados. Fico a cismar pensativa Neste mistério encantado... Diga prá mim: de nós dois Quem ama e quem é amado?... Florbela Espanca

O Amor

O amor, quando se revela, Não se sabe revelar. Sabe bem olhar p'ra ela, Mas não lhe sabe falar. Quem quer dizer o que sente Não sabe o que há de *dizer. Fala: parece que mente Cala: parece esquecer Ah, mas se ela adivinhasse, Se pudesse ouvir o olhar, E se um olhar lhe bastasse Pr'a saber que a estão a amar! Mas quem sente muito, cala; Quem quer dizer quanto sente Fica sem alma nem fala, Fica só, inteiramente! Mas se isto puder contar-lhe O que não lhe ouso contar, Já não terei que falar-lhe Porque lhe estou a falar.. Fernando Pessoa

Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi para o Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história. Carlos Drummond de Andrade

Versos a um ébrio

Sem despedir-se sumiu O ébrio da madrugada Embaixo de uma marquise Morrera sem dizer nada Foram cruéis os seus dias Vida curta e malfadada. Suspiro de um coração Imitando as folhas mortas Tropeçando fracassado Batia sempre nas portas Roupa suja, voz cansada Mancha de lama nas costas. Dormia em qualquer lugar No calçamento das ruas O braço seu travesseiro Suas pernas semi nuas A calça toda em pedaços Como bandeira nas ruas. Seu sangue corria forte Nas minhas veias irmãs Eu o queria assim mesmo Fui uma das suas fãs Batia na minha porta Tombando todas as manhãs. Dos ébrios da meia-noite Foi a ele quem mais amei Porque era meu irmão Eu nunca o desprezei No seu túmulo uma cruz E um retrato coloquei. Foi jovem muito elegante Lindo de olhos azuis Sempre amou a poesia Um mundo cheio de luz Criou na imaginação E o vinho deu-lhe uma cruz. A vida é um metal Que o vinho não lubrifica Quem bebe não é seguro A vida sempre ele arrisca Hoje ele tomba a sor...

Fim do século XX

A obra-prima da ciência, gerou poluição. Petroleiros enegrecendo os mares, Supermáquinas decompondo a canção, Inseticidas envenenando os pulmões. Olhem para os céus! Urubus povoam a terra, Como canibais travam a batalha final, Contra o tempo um minuto fatal, Não restam nada e tudo se encerra. Pela manhã, nenhuma flor jamais sorri. Envenenado o orvalho a desbotou. Para cuidá-la não tem o beija-flor. E sem fazer mal as abelhas vão dormir. É como se fosse a Guernica de Picasso, De Salvador Dali, premonição civil, O último cálculo matemático do compasso, E na história o último míssil que explodiu. Elias dos Santos

Metamoforse

No silêncio nascem as flores Como nasceu a poesia de Cervantes E a Divina Comédia de Dante Representada por seus grandes atores. No casulo, a metamoforse explode E a policrônica voa a borboleta, O beija-flor vem beijar a violeta E um planeta no Universo implode. De repente mil cores pintam o céu E a lua viçosa puxa e véu O vento frio passeia pelo chão. Um vulcão extinto abre a cratera E começa a expulsar toda a matéria E suas larvas entram em erupção. Elias dos Santos